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| Foto: Folha Imagens |
A cidade de Chã Grande está de luto pela perda de um de seus mais importantes representantes da cultura local. Morreu na noite deste último domingo (31), aos 78 anos, Severino Trajano, popularmente conhecido como Biu Barbeiro.
Reconhecido pelo talento e versatilidade artística, Seu Biu construiu uma trajetória marcada pela dedicação à pintura, ao artesanato, à música e a diversas outras expressões culturais. Em suas obras, tinha como principal inspiração a cidade de Chã Grande, retratando paisagens, costumes e momentos que ajudaram a construir a identidade do município.
Em entrevista concedida à extinta Revista Completa, em 2011, o artista destacou o amor que nutria por sua terra natal. Leia o texto na íntegra:
Foi com o objetivo de promover e mostrar as mais belas paisagens e lugares de Chã Grande que ele se tornou conhecido pouco a pouco. Sua vida tem sido dedicada a registrar, com carinho, detalhes jamais percebidos pelos olhos comuns. Isso porque, para ele, é mais do que um prazer: é uma nobre missão. Suas obras têm retratado a história de um povo que, por muitos anos, ficou esquecido no anonimato, sem referência, sem cultura e sem qualquer identificação com sua própria história.
Nesta reportagem, a Revista Completa foi até o ateliê de Severino Trajano da Silva, 63 anos, que, devido à sua importante profissão de cabeleireiro, ganhou o apelido de Biu Barbeiro. Nesse local tão especial, inúmeras telas foram produzidas, percorrendo várias cidades e até mesmo países. Acompanhado de seus famosos pincéis e espátulas, Seu Biu deixa transparecer um profundo amor por tudo o que realiza e faz há muitos anos, embora ainda seja desconhecido por muitos.
Sem dúvida, falar de toda essa história é fácil; difícil mesmo é explicar esse sentimento ímpar que transparece em seus olhos enquanto trabalha e pinta. Oriundo de uma família simples e humilde, Seu Trajano nasceu em Chã Grande, em 1947, quando a cidade ainda era distrito de Gravatá (PE). Foi o primeiro filho de uma família de quatro irmãos: Ivanete, Raimundo e Ivanilda.
Filho do casal João Trajano da Silva e Maria José do Nascimento Silva, Seu Trajano conheceu de perto, na infância, uma vida simples, porém repleta de ensinamentos e lições que permaneceram marcados em sua memória. Com o pai agricultor, passou a residir em uma pequena casa coberta com folhas de palmeira, em uma rua conhecida como Rua da Baixa, voltada para o poente, ao lado da mãe, ex-enfermeira de uma antiga maternidade em Recife (PE).
Essa foi uma das primeiras ruas que deram origem ao então distrito de Chã Grande, ligado a Gravatá, com casas simples feitas de barro e palha. Com o passar do tempo e devido à pobreza, ocorreu a primeira mudança da família para a zona rural, em um sítio chamado Mumbucas. Com aproximadamente um ano de idade, nasceram ali suas duas irmãs, Ivanete e Maria das Dores, falecendo esta última com apenas oito meses de vida. Foi um momento difícil para a família, mas, com o passar dos dias, tudo foi superado.
“Quantas saudades daquela casa, daquele sítio, daquela vida campestre”, relembra Seu Trajano. Vivendo ali até os seis anos de idade, sua família resolveu voltar para a famosa Rua da Baixa, desta vez para uma casa bem mais aconchegante, construída por seu pai e coberta com telhas.
Ingressou na escola de Dona Anacleta, uma das primeiras professoras do distrito, em uma época em que tudo era muito difícil, inclusive estudar. “Levei muitos cocorotes e repreensões da minha mãe para não amassar nem riscar os cadernos feitos por ela”, conta.
As dificuldades eram tantas que, para se ter uma ideia, como ninguém podia comprar cadernos, Seu Trajano aproveitava folhas de papel de embrulho que, passadas a ferro, costuradas e cortadas, serviam-lhe como cadernos para escrever as lições.
No entanto, estudou apenas até o primário (4ª série), pois, naquela época, Chã Grande não oferecia, na rede pública, um nível de escolaridade superior.
“No meu tempo, tudo era novidade. Lembro-me de um dia em que cheguei à escola e vi um dos meus coleguinhas com um lápis e uma borracha na ponta. Achei aquilo maravilhoso e perguntei onde ele havia comprado. Foi então que me disse que um tio, de Recife, havia lhe dado. Para mim, aquilo era fantástico, e tentei convencê-lo a trocar por todos os meus brinquedos. Ele aceitou, e eu fiquei com o lápis”, recorda.
Embora não tivesse materiais para desenho, nem condições de comprá-los, e sem alguém que lhe ensinasse os primeiros passos nas artes, Seu Trajano persistiu, fazendo desenhos até mesmo em folhas de calendário. Foi autodidata até 1975, quando realizou seu primeiro curso de desenho e pintura por correspondência, seguido de outros cursos que lhe proporcionaram melhores condições para expressar seus sentimentos artísticos.
Com um estilo impressionista, suas obras retratam casebres, paisagens, pontes, rios, igrejas, pedras e retratos, entre outros temas. “Meu tema principal é expor minha terra amada, Chã Grande”, concluiu o artista plástico Trajano Silva.
Revista Completa - Jan / Fev 2011



